Esquerda e Direita

Publicado em por Rodrigo Silva

Como surgiu essa classificação?

A classificação de esquerda e direita surgiu durante a revolução francesa (1789–1799). Os defensores da monarquia se sentavam na ala direita da Assembleia Nacional, e os republicanos, na esquerda. Desde essa época, a esquerda foi identificada com quem quer mudanças, e a direita com quem prefere a ordem.

No século XIX se formaram as três correntes mais importantes do mundo político atual. Cada uma delas depende de uma visão diferente sobre a sociedade.

Liberalismo

Os primeiros pensadores liberais, como Locke, Rousseau ou Thomas Jefferson, escreveram na época do Antigo Regime, e refletiram principalmente sobre a autonomia do indivíduo contra o Estado.

Então, a visão de mundo do liberalismo é a de que a sociedade é formada por relações contratuais entre os indivíduos, e que deve respeitar os seus direitos e deveres de forma a garantir a liberdade.

Por isso, os liberais tendem a defender a não interferência do Estado na religião, na imprensa, na economia e nas relações sociais em geral.

Conservadorismo

Como reação ao liberalismo, surgiu no final do século XVIII e começo do século XIX o conservadorismo. Esses autores (um dos primeiros exemplos é o Burke) reagiram contra o que viram como as consequências desagregadoras do liberalismo na ordem social.

Para os conservadores, a sociedade é um todo orgânico, ou seja, cada parte dela tem uma função diferente e necessária para mantê-la em bom funcionamento.

Por isso, mesmo que com o passar do tempo os conservadores tenham aceito o liberalismo na economia, eles propõem que o Estado interfira na sociedade para preservar valores tradicionais, nacionais ou religiosos.

Socialismo

Outra forma de reação ao liberalismo, no começo do século XIX, foram as várias correntes socialistas. O que elas têm em comum é a crítica à economia capitalista, e a defesa da eliminação parcial ou total da propriedade privada.

Para o socialismo, a sociedade é dividida em classes, e as pessoas são vão ter oportunidade de realizar todo o seu potencial se as classes forem abolidas.

Hoje, os socialistas se dividem em socialdemocratas (que defendem uma transição pacífica para o socialismo), comunistas (que são a favor de uma revolução) e anarquistas (que não acreditam que o Estado seja um meio válido para levar ao socialismo).

O espectro

Geralmente, os conservadores são considerados direita, os socialistas são considerados esquerda, e os liberais, centro.

Centrodireita seriam, por exemplo, conservadores mais moderados ou liberais que dessem mais ênfase ao liberalismo econômico que aos direitos individuais (que são erradamente classificados como “costumes”). E centroesquerda, os socialdemocratas mais moderados e os social-liberais (os liberais que dão mais ênfase aos direitos individuais do que à economia).

Extrema direita e extrema esquerda são os setores que não aceitam a democracia parlamentar, e que desejam chegar ao poder através da violência.

A necessidade do contexto social e histórico

Dependendo do país, os critérios para definir esquerda e direita mudam, porque essa classificação é relativa.

Por exemplo, durante a maior parte do século XX, era mais comum uma intervenção do Estado na economia num grau bem maior que hoje. Medidas de estatização de setores inteiros, que hoje são consideradas de extrema esquerda, eram tomadas até por governos de direita, como a ditadura militar brasileira.

A cultura também tem uma influência importante. No oriente médio, por exemplo, muitos partidos de esquerda defendem o que, no ocidente, seriam simples medidas liberais, como separação entre Estado e religião e descriminalização da homossexualidade.

O caso do Brasil

No Brasil, nos últimos anos, três distorções se espalharam, que atrapalham a discussão séria sobre política:

  • Direitistas radicais que chamam todo o espectro político (e até empresas multinacionais como a Globo) de socialistas.
  • O rótulo de “liberal em economia e conservador nos costumes”. Os conservadores aceitam, em linhas gerais, o liberalismo na economia. Então, quem é liberal na economia e conservador nos costumes, é conservador.
  • A classificação de conservadores como “centro”, se baseando numa falsa equivalência entre a direita radical (por exemplo o Bolsonaro) e a centroesquerda (por exemplo, o Ciro Gomes).

A divisão entre esquerda e direita não esgota toda a política (existem questões que se encaixam mal nesses critérios, porque questionam pontos que antes eram consensuais entre a esquerda e a direita, como a ecologia, que coloca em debate o consumo e o desenvolvimento técnico), mas ainda continua útil para entender as movimentações dos partidos e movimentos. É por isso que existe tanto interesse em dizer que ela está superada ou em distorcer o significado dela.