A classe trabalhadora internacional, sindicalismo etc

Publicado em por Rodrigo Silva

Quem é a classe trabalhadora no mundo hoje?

Eu tava dando uma olhada nas estatísticas do Banco Mundial e da OIT (ILOSTAT):

População trabalhadora mundial3,25 bilhões
Assalariados1,82 bilhão
Camponeses+- 750 milhões
Operários industriais+- 450 milhões
Desempregados172 milhões

Rendimentos (não é a mesma coisa que a taxa de mais-valia porque inclui os lucros dos pequenos produtores e não inclui o capital acumulado): variou entre 20 e 24,6% do PIB mundial entre 1972 e 2018, sendo que a mais alta foi ano passado

Participação do trabalho no PIB (trabalho necessário): 53% em 2018

Formação bruta de capital fixo (medida mais próxima da acumulação de capital): varia entre 21,7 e 26,2% entre 1960 e 2018. Ano passado, 23,6% se eu não me engano.

O movimento sindical, apesar dos pesares, ainda organiza a população numa escala qualitativamente maior do que qualquer outro movimento. Em milhões de sindicalizados:

Índia65,2
Rússia23,7
Brasil20,7
EUA15,7
Japão11,2
Itália8,8
Reino Unido7,9
Alemanha7,6
México6,8
África do Sul6,2
Argentina5,0
Espanha3,2
Coreia do Sul2,7
França2,4

Na China, existem poucos sindicatos independentes, a estrutura sindical oficial é paraestatal, no Irã, a mesma coisa. Dos países grandes com tradição de lutas sindicais, não consegui achar os dados da Nigéria. Isso aqui engloba mais de 90% da população do mundo e dá mais de 185 milhões de trabalhadores.

Os mais de 600 milhões de trabalhadores urbanos por conta própria, na sua grande maioria, vivem no terceiro mundo e são camelôs, pequenos comerciantes, artesãos etc, mas uma parte são profissionais liberais (“classe média”).

Em 1921, quando teve o racha do movimento sindical, as duas alas juntas tinham 40 milhões de membros, numa população de 2 bilhões de pessoas. É proporcionalmente menos do que hoje, mas a gente tem que levar em conta de que os sindicatos praticamente só existiam na Europa e nas Américas.

A Internacional Sindical Vermelha no auge teve 17 milhões de membros, mas foi declinando durante toda a década de 1920, e perdendo espaço pra Internacional de Amsterdam, reformista.

Os sindicatos anarquistas (AIT, não confundir com a I Internacional do Marx e do Bakunin) chegaram a um auge de 1,6 milhão na Espanha em 1936. Todas as outras federações anarquistas juntam chegavam a 1 milhão. A IWW, no auge, tinha 150 mil associados.

A Internacional Comunista também foi um fenômeno principalmente europeu. Em 1921, no auge, tinha 887 mil membros, em 1924, depois do fim da onda revolucionária, tinha 650 mil, e foi declinando até chegar a um mínimo de 328 em 1931, como resultado da política de “classe contra classe” (não se unir com a socialdemocracia contra o fascismo).

O PC alemão sempre foi o partido mais importante, com mais ou menos 450 mil em 1921 e 124 mil em 1930. 75% da IC estava em quatro países: Alemanha, Tchecoslováquia, Iugoslávia e França. Nesses três primeiros, no auge, os PCs organizavam, respectivamente, 1,5%, 3% e 2% da população adulta (antes de rachar, 4,5% dos alemães adultos eram filiados ao SPD). Nas eleições, eles chegavam mais ou menos a 10% dos votos. Fora desses casos, eram partidos de quadros. Os maiorzinhos eram o britânico e o italiano, o resto era tipo o PSTU.

O italiano, aliás, que entre 1921 e 1924 foi dirigido pelos comunistas de esquerda, tinha entre 40 e 50 mil membros, o mesmo tamanho do KAPD, organização comunista de esquerda que rompeu em 1921 com o KPD (PC alemão), mas o KAPD viveu em crise permanente e se desintegrou nos anos seguintes.

E tudo isso na Europa. Menos de 5% dos militantes eram de outros continentes na década de 1920. Depois do VII Congresso da IC, em 1934, os partidos se tornam reformistas, pra todos os efeitos. Além disso, começa a guerra popular na China, a maior revolução agrária da história. Então, não tem muito sentido comparar nessas condições.

Por que eu tô falando isso? Porque eu acho que a gente tem uma visão distorcida pelo saudosismo. A classe trabalhadora não era monstruosamente mais organizada cem anos atrás. O que mudou, isso sim, foi a radicalidade das alternativas. E a minha impressão é de que as possibilidades concretas de cada época é que criam esse salto na consciência, e não o contrário. Hoje, com as relações capitalistas enraizadas no mundo inteiro, as perspectivas são diferentes de quando o que estava em jogo eram os caminhos para o desenvolvimento.