Misoginia à esquerda, chauvinismo à direita… E as mulheres encurraladas no meio

Publicado em por Fabiane Lima

“Você já ouviu o que ele fala sobre as mulheres, né?” tuita o homem barbado com o que eu imagino ser um sorrisinho condescendente. Ele se refere a Jordan Peterson. O controverso e polarizante psicólogo clínico canadense está na Nova Zelândia em uma turnê para promover seu novo livro. Eu acredito que seja um livro dizendo para as crianças arrumarem seus quartos, mas de acordo com alguns, Peterson “ameaça tudo o que há de valor na nossa sociedade”.

Homens como esse barbado e aqueles no Auckland Peace Action (nem vou me alongar a respeito da hipocrisia desse nome) estão determinados na missão de que ninguém deveria ouvir ou ler as palavras de Peterson ou senão… bom, na verdade eu não tenho muita certeza do que eles acham que vai acontecer se as pessoas forem expostas a ideias e opiniões das quais discordam. Na verdade, a julgar por essa horrorosa entrevista com Sean Plunket, a própria APA tem dificuldade em nomear o que eles temem que Peterson possa infligir à nossa pequena nação insular.

Eles não temem que as opiniões de Peterson causem violência em massa ou que enxames de gafanhotos possam cobrir as ruas de Auckland. Eles reconhecem que, torta ou corretamente, suas posições a respeito de muitas coisas estão em sentido contrário às de Peterson. Eles estão conscientes da precariedade e fragilidade onde se assenta sua legitimidade, e que um argumento sonoro bem apresentado pode facilmente mudar as opiniões de seus companheiros neozelandeses.


As mulheres da esquerda são notoriamente leais. Nós — sim, a partir de agora vou me referir a nós — somos confiáveis. No que diz respeito aos nossos votos, nosso trabalho e nosso ativismo. Nós seguimos a linha do partido e somos excelentes soldadas… Em geral, de movimentos que nos deixam na mão. Porém, em algum ponto da trajetória temos sido socializadas e nos socializamos a nós mesmas para colocar qualquer outra causa acima da nossa. Basta olhar o estado do feminismo para ver os resultados disso. O feminismo é virtualmente insignificante porque nos é requerido que resolvamos todos os outros problemas do mundo antes que possamos nos direcionar ao seu verdadeiro propósito de libertação de mulheres e meninas. É o único movimento do mundo ao qual não é permitido centrar-se em seu próprio ativismo, nem nomear corretamente seus opressores ou a si próprio.

As mulheres da esquerda têm feito o trabalho de base para os homens no palanque desde sempre. Os trabalhos básicos e entendiantes vão para as moças, enquanto os rapazes narram e oralizam o processo. Os chamados à igualdade e justiça têm ecoado entre as mulheres por todas as causas exceto a sua. Claro, os caras na esquerda aprenderam o script e são excelentes em fazer textão autoindulgente online a respeito da autonomia corporal e da violência contra mulheres, mas na prática são tão inúteis quanto tetas em um touro.

Por que então as mulheres são tão firmemente leais aos homens da esquerda? Homens que vão prontamente explorar seu trabalho, mas que nunca vão se dispor a lutar de forma significativa em favor de mudanças para as mulheres? Medo. Manipuladas pelo medo do ostracismo e condicionadas a ver o terreno político como “nós versus eles” ou “o bem contra o mal”, as mulheres vêm o resto do espectro político como parte da “direita” opressiva. Uma vez contaminada pelas políticas conservadoras uma pessoa, publicação, programa de TV ou o que quer que seja está fora dos limites e é considerado “perigoso”. As mulheres sabem que se se associarem com alguém ou algo que foi rotulado de transgressivo, elas vão aparecer como liberais “malvadas”.

Tendo sido ensinadas que nossa principal função na vida é nutrir e cuidar dos outros, o golpe de mestre da manipulação esquerdista tem sido a proliferação de novas opressões às quais as mulheres são de alguma forma responsáveis por prevenir. As mulheres temem serem classificadas como aliadas ou cuidadoras inadequadas por aqueles considerados mais marginalizados que elas, então põem seus interesses de lado em favor das necessidades alheias.

Nós, mulheres, somos responsabilizadas por qualquer mínima ação de todo ser humano com o qual entramos em contato. Nos dizem para não falar com pessoas que podem nos ajudar se essas pessoas tiverem um pensamento não sancionado pelas políticas progressistas. Se decidirmos buscar recursos fora das fronteiras estabelecidas pelos guardas da esquerda, eles vão rapidamente apontar racismo, classismo, homofobia, transfobia ou preconceito da pessoa ou grupo com o qual estamos nos associando. A desaprovação é ruidosa é explícita e pode vir na forma de ataques em massa. No áuge da manipulação, aqueles na esquerda vão avisar uma dissidente potencial que uma determinada pessoa ou grupo são “misóginos” ou lutam contra os direitos das mulheres. É um super trunfo. Como pode qualquer mulher respeitável da esquerda se associar com um homem que é tão anti-feminista? Se ao menos os homens da esquerda olhassem no espelho…

As mulheres na esquerda estão aprisionadas. Exibimos nossas opiniões como prova da nossa liberdade. “Vejam!”, dizemos, “Temos opiniões radicais a respeito da sociedade! Somos mulheres fortes!” Esquecemos que cada opinião nossa é sancionada porque se tivermos uma opinião não sancionada podemos ser ostracizadas. Não nos permitem questionar ortodoxias ou desafiar hierarquias de opressão. Estamos encerradas em uma prisão invisível de ideologia e validação.

Nunca me senti mais em perigo do que quando me tornei livre. Mas a jaula era segura se eu me mantivesse na linha. As pessoas logo concordavam comigo quando eu repetia refrões e pontos decorados. Eu não precisava pensar muito nas ideias além de aceitar o que havia sido acordado. Mas, uma vez que ousei me expor como uma mulher liberal/feminista/esquerdista “má”, percebi que estava livre para dizer o que quer que fosse porque já tinha sido exposta. Claro que as ameaças de morte e estupro, e a retórica violenta não são muito legais, mas senti que pela primeira vez em um longo tempo eu não era responsável por ninguém. Eu poderia formar minhas próprias opiniões, argumentar sobre seus méritos, e não ter medo de perder nada… porque eu já havia perdido tudo.

No começo, eu tinha que literalmente me treinar para conseguir ouvir pontos de vista divergentes outra vez. Me forcei a ler, ouvir, e assistir pessoas que antes eu tinha rejeitado. Fiquei melhor nesse negócio de me manter calma ao ouvir alguém com o qual eu discordasse e a não ver ofensa em cada frase. Ouvi podcasts de pessoas que odiava sem de fato saber muito a seu respeito. Eu era capaz de examinar criticamente suas opiniões e as minhas próprias, e aceitar que, ao mesmo tempo em que eu veementemente continuava discordando deles em muitos assuntos, podíamos concordar em outros também.

Ainda posso concordar com muitas das ideias e conceitos da esquerda, mas o tribalismo e a política identitária que cooptou completamente a esquerda tornou a discussão racional difícil. Muitos na esquerda não aceitam a lógica dialética de que você pode ao mesmo tempo concordar e discordar em assuntos separados simultaneamente. Para eles, alguém só é aceitável se tiverem provado que concordam com todas as opiniões prescritas do grupo. Qualquer mínima discordância e a pessoa se verá denunciada nos termos mais duros. É uma situação de tudo ou nada.


Discordo muito do que Jordan Peterson diz. Também acho que muito do que ele tem a dizer é interessante independente de eu concordar ou não, e concordo com muito do que ele diz. Tenho capacidade para lidar com isso. A maioria de nós é capaz de lidar com opiniões diversas de pessoas que encontramos por aí sem apelar para press releases hiperbólicos declarando o fim do mundo.

Os homens tem explorado os recursos de tudo e qualquer coisa com as quais já tenham cruzado. Eles não têm quaisquer escrúpulos que exigem das mulheres. Quando os homens ultrapassam as fronteiras políticas para trabalhar com outros grupos, trata-se de diplomacia ou negócios e é celebrado como maturidade e nobreza. Eles não estão presos à ideologia da esquerda como as mulheres estão.

Nessa semana, a incrível Julia Beck fez uma participação no Tucker Carlson Tonight, o que é inevitavelmente uma afronta a muitas de suas próprias políticas e crenças fundamentais. Porém, Julia foi escorraçada pela esquerda. Eles a apontaram por dizer a verdade e a ostracizaram em um lugar onde ela deveria estar a salvo. Seu nome foi parar na lista negra junto ao de muitas outras mulheres. Para onde ela poderia ir? Como poderia reagir? Ao dizer “vocês não podem andar com ninguém mais além da gente”, a esquerda tem o controle total, mas apenas se permitirmos.

A esquerda não é menos misógina que a direita e também não serve aos interesses das mulheres. Por que é considerado pior nos alinharmos a alguém que nos nega o direito ao aborto e à total autonomia reprodutiva do que a alguém que literalmente advoga pelo nosso apagamento enquanto classe sexual, e consequentemente advoga pela destruição da legislação de direitos humanos que nos protege? Da mesma forma, Tucker Carlson e companhia podem ser homofóbicos no velho sentido de cristão radical, mas os Tom, Dick e Harry da esquerda estão ocupados chamando lésbicas de transfóbicas por recusarem-se a fazer sexo com trans. Não me importa que sua homofobia esteja fundamentada em preconceito religioso ou na bandeira do arco-íris, você não é meu amigo.

As mulheres não podem deixar que escolham com quem nós podemos ou não conversar. Nenhum homem barbado nesse planeta controla com quem a gente pode trabalhar. Pode apostar que a gente sabe muito bem que os homens fora da esquerda não são nossos aliados; eles são recursos, e não ouse nos julgar por explorar esses recursos. Verdadeiros aliados não exigem que as mulheres escolham entre autonomia corporal e o direito de nos definir a nós mesmas. O único homem que poderíamos chamar de aliado é um que não vá nos impedir de definir a nós mesmas e aos nossos limites, que vai fazer mais do que textão pelas causas das mulheres, que se coloque contra a nossa colonização, que não vá levantar o punho contra nós, e que nos ajude a quebrar as correntes do poder patriarcal.


Ani O’Brien é uma feminista lésbica crítica das políticas de gênero. Traduzido do original em seu blog.