Candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo: cotidiano de campanha, balanço e perspectivas

Escrito por Kátia Cajá

Publicado originalmente em 4 de dezembro de 2020

Trabalhei muito intensamente nas duas semanas entre o primeiro e o segundo turno das eleições municipais em São Paulo. Foram 13 dias de panfletagem nas regiões da Liberdade, Aclimação, Paraíso e Chácara Inglesa, totalizando mais de 70 horas na rua dialogando intensamente com o povo em saídas de metrôs, parques públicos e feiras de rua.

Toda a militância tinha certeza de vitória. As pessoas demonstravam muito boa adesão à campanha: as pessoas com quem conversávamos frequentemente ficavam convencidas do que dizíamos. Das que já declaravam voto no Boulos as manifestações de apoio eram entusiasmadas, geralmente acompanhadas de pedidos de material para fazer campanha junto aos parentes, colegas etc. Gente que não tínhamos abordado vinha pedir panfletos e adesivos espontaneamente para dialogar com seus parentes, amigos etc. Pouquíssimos declaravam que iam votar no Covas: a maioria de quem não declarava voto no Boulos dizia que não compareceria nas eleições. 

As pesquisas não demonstravam esses, talvez, 70% de adesão que a gente estava sentindo nas ruas e estranhávavmos bastante, porque os companheiros panfletando em todas as regiões de São Paulo também sentiam a mesma resposta muito positiva das ruas. Parecia que a cidade estava contagiada: todas as estações de metrô, terminais de ônibus e demais pontos estratégicos estavam cobertos por uma militância jovem e incansável, se alternando para cobrir todos os horários. 

Diferente da proporção de intenção de votos Boulos x Covas, que não parecia bater com o que ouvíamos das pessoas, o que as pesquisas diziam que coincidia com o que víamos todo o dia eram os brancos, nulos e indecisos diminuindo na mesma proporção em que o Boulos crescia, enquanto o Covas permanecia sempre estável. 

Inúmeras vezes a primeira reação das pessoas à minha abordagem era “não sei” ou “eu nem voto” e variantes. “Vou anular.” “Nem votei no primeiro turno” (sempre esclarecíamos que dava para votar no segundo normalmente, apesar disso). “Faz anos que não voto em ninguém.” “Prefiro justificar.” “Eu só pago a taxa lá e pronto.” E eram essas pessoas que davam mais abertura para continuarmos uma conversa que, muito frequentemente, terminava em mais um ganho pro nosso projeto. Uma passada rápida pela nossa história política recente explica. 

Os anos FHC foram apáticos para as lutas sociais. Quando a esperança venceu o medo e Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto, os anos seguintes ensinaram uma coisa importante para o brasileiro sobre ele mesmo: o que o Brasil quer é uma social-democracia. Para sempre: chega de liberalismo. O PSDB e os liberais foram associados, corretamente, com toda a miséria que causam, e a população decidiu no seu íntimo: nunca mais. 

Mais adiante, em 2013, o povo deixou claro: quer uma social-democracia de verdade, não o arremedo de uma, um reformismo sem reformas, como o governo Dilma. Nem um governo socialista – não, não. Somos “contra a violência”, “não queremos ditadura”… só queremos serviços públicos de qualidade. Voltar ao liberalismo? JAMAIS. As prioridades mais enfatizadas pelos cartazes eram saúde e educação públicas de qualidade. Mobilidade urbana, segurança pública, “fim da corrupção” também eram reivindicadas, mas antes de mais nada, saúde e educação. 

Nas eleições seguintes uma última chance foi dada ao PT e a Dilma não respondeu ao clamor das ruas, pelo contrário… continuou no projeto de “conciliar” interesses, por definição, irreconciliáveis. Os liberais conseguiram emplacar o Temer e acharam que isso resolvia a questão, mas nas eleições seguintes, viram que a população continuava preferindo qualquer coisa a não ser eles. Ninguém esqueceu a miséria gerada pelo tucanato, e procurou outra alternativa, já que o PT se mostrou tão limitado. 

Quem ganhou, então, foram os conservadores, mas a adesão a eles durou pouco: passado o ódio, o que ficou foi só a soma do vazio de esperança com mais a apatia. Se não queremos os liberais, não acreditamos mais que uma social-democracia seja possível no nosso país, não queremos socialismo, e o conservadorismo não está se provando melhor que o liberalismo, o que nos resta afinal? Foi então que o brasileiro médio… desistiu. Massivamente. Nestas eleiçõe em São Paulo tivemos, somando brancos, nulos e abstenções, mais 44%, fenômeno que se repetiu em proporções parecidas por todo o país. E ele não é novo: é fato sabido que a soma de brancos, nulos e abstenções dá uma quantidade maior do que a de votos que o Bolsonaro teve nas eleições presidenciais passadas. 

Enquanto eu panfletava, notava que a decisão de não votar vinha, antes de mais nada, de uma desilusão com o PT. O conservadorismo não é a cura, e o liberalismo é um passado a esquecer, então, não há o que fazer. Certo?

O PSOL se apresenta como uma alternativa de governo voltada para o povo, “sem corruptos”, e os olhos voltam a brilhar. O raciocínio que vi desenharem muitas vezes ia pelo seguinte caminho: “Então vocês eram do PT e saíram antes de estourarem os grandes esquemas de corrupção? E o PT falava que isso era infantilidade e que vocês nunca iam passar dos 2% de intenção de votos? E agora vocês estão com uma chance real de vitória eleitoral… Bom, então vamos juntos! Eu quero ver se isso daí vai funcionar mesmo – depois eu volto aqui pra te cobrar, hein?”.

Poucos foram de um ceticismo à prova de argumentação. Dizer que as famílias de políticos ricos nunca dariam nada pra nós, que tínhamos que colocar gente como a gente no poder, e participar da construção do governo no cotidiano era fazer um discurso que sempre funcionava. 

Outra ideia que tinha bastante adesão era a de criação de frentes de trabalho nas periferias, para fazer a zeladoria da cidade, diminuir o desemprego e reincorporar a massa de trabalhadores que foi marginalizada pela crise do coronavírus. 

Apresentar o PSOL como uma alternativa de partido que quer governar para o povo, mas sem os corruptos do PT, é apresentar uma alternativa pela qual as pessoas estão ávidas e não sabiam que existia. A juventude militante em peso na rua, panfletando voluntariamente, dava uma credibilidade extra: “Essa é uma trabalhadora que nem eu, mas ela não está ganhando para entregar estes panfletos. Ela está construindo algo no que acredita porque sabe que só nós podemos fazer isso por nós mesmos, pra sair da lama em que estamos – sorte a dela que é jovem e tem pique para isso. Ela conhece, demonstra saber do que está falando. Parece a minha filha. Não se trata de um político que fala bonito prometendo coisas maravilhosas… esses são jovens que dão aula em cursinho popular, que estudaram, que cuidam dos animais… acho que já esbarrei com eles antes em algum lugar. E tão dizendo que conhecem esse Boulos de pertinho, porque ele vive aparecendo nas lutas que eles fazem no dia a dia. Eu quero isso. E, se eu contar pra minha esposa, ela também vai querer. E, se a minha filha ouvir, vai ficar orgulhosa de nós.”

Os nulos e abstenções mais irredutíveis, e que não davam margem para conversa, talvez fiquem bem representados pelo que ouvi na minha família. O raciocínio era: não adiantaria elegermos a pessoa certa, porque ela só poderá ir “até onde eles deixam”, sendo eles “os poderosos”, “os donos do poder”. Pairam sobre esse discurso as seguintes sombras: 

  • as limitações impostas aos governos Lula e Obama, que não podiam ir até onde queriam; 
  • a perseguição ostensiva da mídia tradicional 

e, principalmente: 

  • o impeachment fraudulento de Dilma Rousseff. 

Portanto, não adiantaria ter esperança nem votando e ganhando: para as derrotas eleitorais, os poderosos tem a sabotagem. Melhor é desistir mesmo.

E o PSOL se apresentou como uma força com a proposta petista, que foi boa mas insuficiente, e parecia abandonada. Isso fez as pessoas voltarem a ter esperança em dias melhores. Nunca vou esquecer, das muitas e muitas pessoas com quem conversei, esse processo de reencantamento se desenhando. Às vezes em 45 minutos, às vezes em 3 horas de conversa. Em qualquer coisa, os rostos se iluminavam. Podemos e pretendemos fazer mais do que o PT jamais fez. Estamos dispostos a sacrificar mais. Somos menos transigentes com os nossos princípios. Temos ideias mais ousadas. Mas não prometíamos isso. Prometíamos, simplesmente, ser uma alternativa popular e honesta. Isso bastava. 

Eu não fico circulando nos espaços da ultra esquerda, mas cheguei a ver meio de longe que chamaram a candidatura do Boulos de “despolitizada” porque ele não está defendendo uma prefeitura revolucionária… bom, o diálogo que me interessa é aquele que eu efetivamente fiz e faço, com o povo, nas ruas. Quem faz isso sabe diferenciar o que dialoga com a população e o que dialoga com os russos do começo do século XX, e sabe que diálogo faz a realidade avançar, mudar pra melhor, muito mais do que qualquer purismo principista. Essa campanha convidou sim as pessoas a integrarem o processo político de novo, inclusive, não apenas votando. E conseguiu uma adesão impressionante, vistosa, que mudou mesmo a cara da cidade. Então o que significa “despolitizado”, afinal? 

Perdemos, e isso foi dolorido inclusive porque houve uma quebra de expectativa. Mas acertamos bem no discurso, na maneira de encaminhá-lo, e crescemos numa velocidade vertiginosa – no primeiro turno, tivemos 1 milhão de votos para o Boulos. No segundo, 2 milhões. Dobramos a quantidade de votos em 2 semanas sendo que, no começo do primeiro turno, 43% dos paulistanos nunca tinham ouvido falar em Guilherme Boulos. No final do segundo, 40% de quem votou optou por ele.

Temos, sim, vários gargalos. Um deles é: uma campanha eleitoral é um período curto demais para, além de conquistar votos, também amarrá-los de maneira sólida, revertendo a forte tendência a abstenção. A inação continua uma alternativa tentadoramente fácil, inclusive porque uma porcentagem expressiva das pessoas com quem conversamos declarou ter sido convencida, mas estar fora do seu domicílio eleitoral.

Um próximo passo interessante que já estamos estudando é aproveitar a capilaridade que conquistamos nos bairros e fazer uma campanha massiva de convencimento das pessoas sobre a importância de transferir o título de eleitor para a sua região. Num primeiro momento, isso devia ser um trabalho para o TSE, porém já se provou muito interessante para nós. O dado mais recente que encontrei aponta que 45% das pessoas que residem em São Paulo não são daqui, e nós do PSOL sentimos uma adesão fácil especialmente entre os nordestinos, nortistas e mineiros. 

Estamos estudando também como sustentar, nos territórios, a adesão que conquistamos, para que ela permaneça além do período eleitoral. Vários coletivos regionais já surgiram da constatação dessa necessidade. Não perdemos um dia sequer: na segunda-feira seguinte à votação já circulavam convites para ingressar nos novos coletivos fundados nos bairros. Surgiram muitos. Já estão agendando reuniões.

A direita não tem nada nem remotamente parecido com isso. Os robôs de disparos em massa não conseguem competir com uma presença forte nas redes dialogando com uma presença também forte nas ruas. O que o Bolsonarismo ou o tucanato tem para oferecer no cotidiano das pessoas? 

Covas teve 70 mil visualizações em seus vídeos, e Boulos teve 11 milhões. Da mesma fonte: Boulos ganhou 78 mil novos seguidores no Instagram e Covas, só 5 mil. No Facebook, 20 mil novas curtidas na página do Boulos e 2 mil na do Covas. 

A soma das redes com as ruas se mostrou um grande sucesso. Um dado já bastante conhecido é que Bruno Covas gastou três vezes mais que Boulos por voto obtido nesta campanha eleitoral. Outra coisa a comemorar: a projeção do Boulos nas redes foi nacional, e a do Covas estritamente local. 

Além das frias assinaturas de intelectuais em moções de apoio, diversos artistas de peso contribuíram para a nossa campanha com o seu trabalho. Humoristas, cantores, atores e demais artistas usaram a criatividade, o talento e deixaram as redes e as ruas visivelmente psolistas, o que gerou um impacto que intimidou a campanha e os eleitores do Covas, além de motivar e reforçar a mensagem dos que foram convencidos pelas ações de panfletagens. 

Centenas e centenas de vídeos, charges, músicas e demais materiais foram produzidos, amplamente disseminados e o avanço de consciência que as pessoas impactadas tiveram não se perde – a não ser que façamos um péssimo trabalho. 

Boulos e Erundina também fizeram o imenso milagre de unir todos os partidos que têm 1% que seja de compromisso com o social. Do PT, sempre resistente a perder o protagonismo, ao Rede Sustentabilidade. Do PDT ao PSB, todos entenderam o que está em jogo e se somaram. 

Ainda entre os nossos acertos, o PSOL realizou prévias para decidir quem seria o nosso candidato, sendo que Boulos venceu essa primeira eleição interna ao partido. Definitivamente a outra opção, Sâmia Bomfim, não teria feito melhor. A trajetória de vida do Boulos era muito útil para pôr na mesa – o que a Sâmia tem para oferecer, nesse sentido? A escolha da Erundina como vice também merece o seu destaque: isso fez TODA a diferença, principalmente nas periferias, pois as pessoas se lembram da prefeitura dela com muito carinho. Ela é uma figura de grande credibilidade. 

Com tudo isso, só restou ao Covas se abster do último debate. Foi um golpe duro para nós, já que os 2 primeiros debates (CNN e Band) foram muito favoráveis ao Boulos. Isso provavelmente foi o que motivou a TV Record, de aliança estreita com o eleitorado evangélico, a cancelar seu debate, ao que foi seguida por SBT e Folha+UOL. O debate na Globo alcançaria uma parcela da população impossível de chegar pela panfletagem e pelas redes, e não tivemos essa oportunidade

Se compararmos os mapas das eleições de 2020, 2018 e 2016, veremos que o Boulos ganhou nas mesmas regiões em que o Haddad nas suas candidaturas para reeleição e para presidência. Covas, por outro lado, ganhou nas mesmas regiões que votaram majoritariamente no Bolsonaro e no Dória. 

Boulos e Haddad ganham nos extremos das periferias, perdem com pouca diferença nas periferias um pouco mais próximas do centro, e perdem feio no centro de São Paulo. A única exceção é o centro velho, onde o resultado é o mesmo que o das periferias menos afastadas: Dória, Bolsonaro e Covas ganham com uma margem pequena. 

Um bom motivo para comemorar é que o Boulos avançou em dois distritos eleitorais que o Haddad nunca tinha levado: Capão Redondo e São Mateus, periferias também. É como se a cidade estivesse em um processo de avanço paulatino da consciência política, em que quanto mais longe do centro, mais consciente a pessoa se mostra. A cada 2 anos, o avanço de consciência mostra estar ganhando território, das bordas para o centro. Este estudo, muito mais aprofundado, traz dados ainda mais reveladores sobre o quanto este processo eleitoral foi ímpar – não vou trazer as principais ideias, convido todos a lerem na íntegra. 

A transformação não aconteceu na velocidade necessária para levarmos esta eleição, mas construir uma alternativa ao PT não poderia, mesmo, ser um processo concluído em tão poucos anos. Dentro dessa proposta, a preocupação que o PSOL precisa ter é sua falta de capilaridade nos interiores. Isso é um problema para a conquista de governadores e do governo federal, e precisa de outras estratégias que não as que estamos empregando com sucesso nas cidades, as grandes e as universitárias. 

A História Política tem mudanças rápidas, reveses surpreendentes, fatores fora de controle dos sujeitos e das instituições, e tentar adivinhar o que vem pela frente é sempre temerário. Mas as pesquisas de intenção de votos mostraram uma tendência de crescimento que pretendemos continuar sustentando pelo mesmo método. Para mim, o que fica deste processo eleitoral em São Paulo são duas coisas. Que a juventude em massa nas ruas e nas redes, dialogando com todo o restante da população, é uma apresentação que funciona. E que temos algo para oferecer que vai ao encontro dos anseios da maior parte da população.