Um panorama da luta armada na América Latina hoje

O meu objetivo aqui não é fazer um histórico nem discussão sobre estratégia (podemos falar brevemente sobre isso nos comentários), e sim dar um panorama das organizações que estão em luta armada atualmente, e colocar pelo menos um link ou notícia por onde se possa buscar mais informações.

Antes disso, é importante entender que existem quatro expressões principais de luta armada nesses processos, que algumas vezes se combinam. A primeira é a mais antiga no continente, e que existe há mais de quinhentos anos, é a resistência das comunidades indígenas contra o roubo das terras e a agressão. A segunda são as organizações foquistas, que surgiram no ciclo dos anos 1960-70 ou que foram inspiradas por ele (as organizações foquistas defendem que um foco guerrilheiro criado por uma organização politicomilitar pode criar as condições para a tomada do poder). A terceira, que está cada vez mais residual, é o maoísmo. (diferente do foquismo, os maoístas defendem que a luta armada é uma guerra popular, em que o exército está subordinado ao trabalho do partido entre as massas e é criado como um destacamento do movimento camponês). E a quarta, que ressurgiu no começo do século XXI, é o anarquismo insurrecionalista.Aqui eu vou falar das organizações principais.

Existem muitos grupos regionais e efêmeros, e seria quase impossível listar um por um. A resistência indígena está usando métodos de luta armada atualmente em pelo menos dois países. No Chile, com a Coordinadora Arauca-Malleco e Weichán Auka Mapu (WAM), que são dois grupos do movimento mapuche que fazem ações de sabotagem e retaliação.

Mas o caso mais importante é do EZLN mexicano, que deu o passo do foquismo para se tornar a expressão armada das comunidades indígenas de Chiapas. Com mais ou menos 7.000 combatentes e controlando uma área de 24.000 km2 com a população de 350 mil pessoas, é uma das maiores organizações populares armadas do mundo. Infelizmente, não cabe aqui falar sobre a experiência zapatista, mas esse link é uma boa introdução.

O anarquismo tem um histórico no continente em que, no auge do movimento, no começo do século XX, existiam grupos que faziam ações armadas de retaliação ou para financiar o movimento operário. O insurrecionalismo é diferente, porque acredita que as ações violentas podem funcionar como um detonador para movimentos insurreicionais. Desde o começo do século XXI existem grupos ligados à Federação Anarquista Informal e dezenas de grupos locais, efêmeros, principalmente no México, Chile e Bolívia (algumas ações aconteceram no Brasil e Argentina também). Aqui tem vários comunicados de ações insurrecionalistas.

Cartaz do PCP – Base Mantaro Rojo. ILA = Início da Luta Armada

O auge do maoísmo na América Latina, claro, foi com a guerrilha do PCP Sendero Luminoso na década de 1980. Depois da prisão do líder da organização, Abimael Guzmán (Presidente Gonzalo) em 1992, e as várias ondas de repressão até 2012, o que restou do PCP está clandestino na região de Mantaro, praticamente num esforço de sobrevivência, com poucas ações armadas. Nessa situação também está o PCE Sol Rojo do Equador, que é a outra organização senderista da região que está em luta armada.

O racha do PCP que teve mais sucesso é o PCP (Militarizado), que tem uma orientação mais próxima do foquismo. Eles estão em crise no momento, após a morte recente de um dos dois dirigentes principais, Jorge Quispe Palomino. Eles são ativos na região do Vale dos rios Apurinac, Ene e Mantaro (VRAEM). Além deles, tem mais outras duas organizações maoístas que não são senderistas em luta armada.

Uma é o Exército Popular de Libertação (EPL) colombiano, ou melhor, a minoria que não fez o acordo de paz em 1991, e que tem uma base frágil perto da fronteira com a Venezuela, com poucas centenas de combatentes. A outra é o Exército Popular Revolucionário (EPR) do México, que é ativo desde os anos 1990 na região de Chiapas, com algumas centenas de combatentes. Essas organizações são exceções, porque a maioria das organizações maoístas do continente não avalia que é possível começar a guerra popular na conjuntura atual.

Finalmente, temos as organizações foquistas. Uma, que tem importância histórica (foi a principal organização armada lutando pela independência nos anos 1970), mas hoje é residual, é o Exército Popular Boricua (EPB – Macheteros) de Porto Rico.

No Paraguai, em 2008 foi criado o Exército do Povo Paraguaio (EPP), que hoje tem algumas centenas de combatentes e tem ações principalmente de retaliação contra fazendeiros, mas também sequestros e outras ações para conseguir fundos. Mais sobre eles aqui. Finalmente, na Colômbia, temos duas organizações maiores, além das que já foram citadas. Uma é o Exército de Libertação Nacional (ELN), que tem uns 3 mil combatentes, e atua na Colômbia e na Venezuela, onde funciona como um braço armado a serviço do governo. A outra é a dissidência das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC), formada pelo setor que não aceitou o acordo de paz em 2016, e que tem mais ou menos o tamanho do ELN.